Os livros como eles são
Depois de 45 anos fazendo livros, e
há 25 publicando pela minha Ibis Libris Editora, chego a mais uma encruzilhada,
que me mostra como é frágil o destino humano. Tudo o que fazemos se resume a
uma tênue tentativa de deixar um traço na natureza, quando muito, fazer alguns
amigos, escrever algumas palavras e, por último, ser lembrado por algo que fizemos.
A escrita deve ter sido inventada por esse motivo. Sem ela,
seria impossível deixar rastros. Dos hieróglifos dos egípcios à escrita
cuneiforme dos sumérios, e outras que se fizeram ao longo da História, é a
única forma de marcar nossa presença nas idas e vindas nesta Terra. A questão é
como fazer isso.
Como editora, passo por diversas saias justas. Seja para
revisar um texto, ou finalizar um livro, escolhendo capas e, por fim,
colocando-o no mercado, deparo-me com situações inesperadas que nem por um
sonho eu gostaria de ter de enfrentá-las. Mas elas ocorrem e então não podem
ser reescritas.
Um livro é perene. De todos os objetos criados pelo homem, o
livro contém a totalidade dos erros e acertos possíveis a um ser humano. Na
revisão, lutamos para retirar os deslizes linguísticos que todos são capazes de
produzir. Escrever é uma experiência cumulativa, quanto mais se escreve, mais
se sabe escrever, porém, sem correção, haverá uma sucessão de paradoxos que nos
imporão um desafio de cavá-los, pois nem sempre os erros são aparentes ou
fáceis de perceber.
Toda vez que reviso, me sinto diante de um sítio
arqueológico, desenterrando objetos que antes estavam ocultos e, de repente,
vêm à luz. Uma revisão se faz por camadas. Por isso, a primeira pouco se vê, só
por cima, reconhecendo o terreno. Aos poucos, vamos retirando a poeira sobre os
vasos, sarcófagos e estátuas ali enterradas.
Lá pela terceira ou quarta revisão, conhecendo bem o assunto
que foi escrito, conseguimos pinçar aquele erro escondido, que espera passar
despercebido. É esse trabalho de revisão que, em geral, os autores não fazem ou
não sabem fazer.
Primeiro, porque acham que escrevem corretamente quando
todos erram ao escrever. Escrever sem erros é quase impossível. “É preciso
reler até não querer mudar mais nada”, eu disse no 1º Mandamento do Livro. Só então
o texto estará pronto. Mas há uma resistência para a autocorreção. Segundo, nem
todos se lembram das regras gramaticais, ou se esqueceram, porque não as usam
com frequência. Escrever é hábito, portanto é preciso praticá-lo. Terceiro e
por último, a escrita melhora com o tempo. É uma evolução intuitiva e
mnemônica. Ler textos de outros autores ajuda para que a nossa escrita se torne
mais fluida e correta. Favor ler bons autores!
Mas tudo isso muda com o tempo. O que era correto no século
XVIII e XIX, quando surgiram os romances e hoje que se escreve como dá na
telha, sem conhecer o que já foi escrito, nem outros autores, perderam-se os
parâmetros das grandes obras e dos grandes autores. Minto: Machado de Assis ainda
continua assombrando a atual geração.
Se escrever e publicar não fossem meu ofício, eu não estaria
me dando ao trabalho de escrever e publicar há tanto tempo. Mas, como sempre,
deparamo-nos com encruzilhadas, em que precisamos escolher qual trilha seguir,
a mais ou a menos usada, a mais ou menos comum, a ordinária ou a
extraordinária, aquela que ninguém trilharia, a que ninguém ousaria
seguir.
Em um poema meu em “Joio & trigo”, escrevi: “Escrever
não é ofício, é miragem”. Por causa desse verso, recebi um elogio de um poeta bem
mais velho, que me disse que eu havia resumido, nesse verso, que o ato de
escrever transcende o ofício da escrita. E o supera por conter mais do que
apenas o ato de escrever. Para isso, é preciso conhecer profundamente sobre o
que se escreve e como se deve escrever – e isso faz toda a diferença.
Niterói, Primavera de 2024
Thereza Christina Rocque da Motta

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