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Mostrando postagens de julho, 2024

As ex-livrarias

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Comecei há 18 anos a vender livros em livrarias. Aprendi, como todo mundo, como deveria consigná-los, a dar o desconto, calcular o preço de capa, levá-los, um a um, na loja, para que ficassem à espera de seu comprador.  Eram poucos livros, assim eu mesma fazia as entregas. Depois vieram os lançamentos, as caixas de livros, os acertos, as encomendas, e fui levando à frente aquela distribuição sem forma, sem muita direção, apenas seguindo aonde o nariz aponta.  Conheci outros editores, outras livrarias, outros autores, tradutores, fui aumentando meu círculo de contatos, de amizades, de autores que queriam fazer livros, dois no primeiro ano, quatro no segundo, oito no terceiro, até chegar a 44 títulos num mesmo ano. "É muito", me disseram, sim, é muito, mas foi o que surgiu, nem sei como dei conta disso num ano muito corrido como foi 2004.  Depois, veio a crise, a partir de 2012, o governo deixou de comprar livros, as livrarias deixaram de encomendar, os autores ficaram sem ...

A correção dos erros

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  Corrijo erros, não autores. Corrijo textos, não escritores. Nunca disse quem errou, mas sou obrigada a emendar o erro, senão serei apontada como ignorante, não o autor, embora não ganhe o mérito pelos erros dele que corrigi. Nem devo. Quem se incomoda com isso veste a carapuça, ou não quer descobrir seus próprios erros. Nunca dei nome aos autores que erram, mas todos acabam errando de A a Z, de 8 a 80 anos. O importante é suprimir o erro e combater quem não o corrige, porém não aponto quem errou. E se, mesmo assim, prefere que eu não corrija, me poupará dos seus erros. Mas ninguém sabe quem errou, apenas se espelharam nos erros que apontei. Melhor ignorar e fazer de conta que escrevem bem. Os erros se espalham e vivemos a ditadura da ignorância, onde quem sabe se cala e consente. Prefiro ficar longe de quem não gosta de admitir que errou. E não gosta de ver seus erros apontados, mesmo anonimamente. Jamais apontei os erros de alguém, mas denunciei os erros que muitos cometem quand...

O mistério do erro que volta

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Em publicação de livros, eu já vi de tudo. Já escrevi dois livros a respeito. Desde autor que desiste do livro na hora de imprimir, àqueles que nem começam com medo de errar. No mundo literário tem de tudo, mas o caso do Volume 1, de "O Velho Oeste Carioca", de André Luis Mansur, de 2008, é assombroso.  Este livro começou com sucesso desde o lançamento. O autor, André Mansur, já tinha andado de ceca em meca para encontrar um editor, e toda vez que mostrava o texto, achavam muito bom, tudo muito bem, mas não entraria nas prioridades da editora.  Eu, ao contrário, gostei do livro de cara: aquilo de falar sobre a história da Zona Oeste do Rio de Janeiro era apaixonante. Tive que contornar o meu "conselho editorial", que, na época, era formada por mim e mais um sócio que achava tudo desinteressante (como este, ele desaprovou "Caymmi e a bossa nova", de Stella Caymmi e "A dança dos sonhos", de Michael Jackson, que fiz mesmo assim, e quase desaprovou o...

Fazer livros não é para os fracos

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Um livro não é só seu autor e não é só a edição. Ambos devem estar conjugados da melhor maneira para o resultado ser bom. Eu não entendo um livro só gráfico, sem conteúdo. E não entendo um livro bem escrito e mal editado. Dá dó só de olhar. Há projetos gráficos que se superam, mas percebo que dão mais importância a isso do que para o livro em si, em alguns casos. Não sabem o trabalho que deu para o texto ser terminado. Quanto durou a revisão, o que entrou em questão até a redação final do livro. Veem só pelo lado de fora.  Uma vez chamei a atenção do meu designer que estava junto no lançamento, para quanto o livro estava sendo elogiado por fora. Eu comparei à construção de uma casa, em que só elogiam o exterior. Por trás da tinta da parede, há muitos tijolos e cimento. Muitos canos e ligações elétricas. Toda uma engenharia para fazer a casa funcionar desde a sua fundação. Como filha de arquiteta, e irmã de engenheiro, entendo bem de construções. Mas aplico isso aos livros, como ele...

Michael e Eu

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Michael Jackson sempre foi reconhecido como um excelente cantor e dançarino e também compositor. Criou momentos inesquecíveis com "Billy Jean", fazendo seu Moonwalk, ou reunindo amigos para cantar "We are the World", na década de 1980. Desde pequeno, marcou a nossa vida, até morrer, repentinamente, em 25 de junho de 2009, às vésperas da estreia do seu "This is it!", aos 50 anos de idade. Ninguém esperava (nem poderia esperar) por isso.  Um dia antes da morte de Michael Jackson, eu tinha lançado, no Rio, uma edição com uma nova tradução de "Carmina Burana", no dia de São João, na antiga Livraria Leonardo Da Vinci, no centro da cidade.  No mês seguinte, houve três apresentações gratuitas de "Carmina Burana", de Carl Orff, no teatro da Escola de Música da UFRJ, durante um fim de semana, e me convidaram a lançar o meu livro recém-lançado lá. Ali eu conheci Lilian Bosboom, casada com um americano, que era o técnico de luz, durante o espetácu...

Sempre sobra para o editor

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Realmente os tradutores deveriam traduzir e os revisores revisar, mas não é isso o que acontece. Sorte que o editor vem depois deles e pode terminar o serviço por eles, pelo menos eu posso. Nunca se deve pedir um serviço a alguém que não se possa fazer sozinho, a não ser serviços elétricos e cirurgias. Se mando fazerem uma comida, devo ser capaz de prepará-la também. Senão não poderei corrigir se sair errado. Acontece o mesmo com o livro. Tenho que ser capaz de fazê-lo como o autor, o revisor e o tradutor devem fazê-lo. Como o autor para compreender o que ele escreveu, respeitar e corrigir se necessário. Como o tradutor e revisor para retificá-los quando for preciso. Senão o editor acabará publicando o pior livro, que nem o autor, nem o revisor, nem o tradutor souberam fazer. Quando o livro é bom, elogiam o autor. Quando o livro é ruim, o editor é que não presta.  16 de maio de 2019 Thereza Christina Rocque da Motta

Ainda sobre "livros" para colorir

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Grande e complicada seara essa a dos “livros” para colorir. Por mais que vendam a rodo, porque são cadernos de distração como tínhamos na infância (pelo menos eu tinha), são o que garantem o pro labore dos editores (para quem já começou a imprimi-los), como já foi a “maldição” dos best-sellers que roubam o cenário editorial internacional. Hoje só vendem livros “estrangeiros”, bem ou mal traduzidos, mas que não refletem o que se escreve e se publica em português legítimo. Eu vejo a lista dos 10 mais vendidos e choro. Há 30, 40 anos vendiam-se livros brasileiros, hoje só “estrelas” do mercado mundial, que também puxa essa coisa de “colorir”. Eu jamais perderia meu tempo colorindo nada, como não o fiz na infância, proibida por minha mãe de preencher espaços vazios num desenho já feito, pois ela, como arquiteta, acreditava que eu tinha de fazer desenhos à mão livre, meus próprios desenhos e não colorir os outros. Resultado, nunca desenhei nada, só aprendi a escrever e faço isso bem até hoj...

A pureza do cristal

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A poesia nos faz refletir, pensar sobre coisas que se escondem por baixo de outras, e que não veríamos se não fosse o poema nos revelar o que está oculto. Assim funcionam os poemas para mim – eles têm que revelar o que eu não veria de outra forma. Como uma lupa, uma lente de aumento, mesmo diminuta, que amplia a visão das coisas estanques, que não se movem se não as tirarmos de lá. Rosália Milsztajn consegue o prodígio de mover o inamovível. Aquilo que pensamos que sempre estará lá e, de repente, se mexe. Já não é mais o que pensávamos ser. Por meio da poesia, ela faz o ofício da tecelã, que une os fios que antes estavam separados e juntos formam um desenho. No desenho, descobrimos um rosto, um traço, um nome, um horizonte perdido. Ali está o que não víamos antes. Ao se referir ao “palimpsesto de vozes” contidas no mar, Rosália exalta todas as vozes que ouvimos continuamente dentro de nossa cabeça: os poemas que lemos há muito tempo, os conselhos de nossa mãe, as imagens de outros fil...