A pureza do cristal
A poesia nos faz refletir, pensar sobre coisas que se escondem por baixo de outras, e que não veríamos se não fosse o poema nos revelar o que está oculto. Assim funcionam os poemas para mim – eles têm que revelar o que eu não veria de outra forma. Como uma lupa, uma lente de aumento, mesmo diminuta, que amplia a visão das coisas estanques, que não se movem se não as tirarmos de lá.
Rosália Milsztajn consegue o prodígio de mover o inamovível. Aquilo que pensamos que sempre estará lá e, de repente, se mexe. Já não é mais o que pensávamos ser. Por meio da poesia, ela faz o ofício da tecelã, que une os fios que antes estavam separados e juntos formam um desenho. No desenho, descobrimos um rosto, um traço, um nome, um horizonte perdido. Ali está o que não víamos antes.
Ao se referir ao “palimpsesto de vozes” contidas no mar, Rosália exalta todas as vozes que ouvimos continuamente dentro de nossa cabeça: os poemas que lemos há muito tempo, os conselhos de nossa mãe, as imagens de outros filmes, palavras de outros livros, tudo se mistura num grande milk-shake e se derrama dentro do poema. Graças a ela, entendemos o que ficou esquecido entre uma e outra fala. Lembramos o que havíamos perdido.
Assim, a manhã não é mais triste por causa da cigarra, as águas verdes do Leblon nos acompanham, e tudo ultrapassa as linhas dos poemas que lemos neste livro. Rosália Milsztajn consegue subir uma oitava para cantar mais alto. É preciso ouvi-la. É preciso lembrar da “Noite dos cristais”.
Este seu “Puro cristal” cintila mais que a luz refratada. Sabemos o que está contido nos poemas tão bem quanto o mais bem guardado segredo, mas não temos coragem de dizê-lo. Mas ela tem.
As vozes de outros poetas perpassam seus versos e sabemos de onde vem o som. Lembramos deles. E lembrar deles é um bálsamo. A poesia só faz bem se curar. Se fizer cicatrizar a ferida que nem sabíamos aberta. Li e reli os poemas, e fui ao fundo do que a poeta disse e quis dizer. Voltei de lá renovada.
Neste novo livro, Rosália Milsztajn cumpre seu desígnio de poeta, de fazer com que os poemas nos atravessem.
Thereza Christina Rocque da Motta,
poeta, tradutora, editora da Ibis Libris
20/08/2021

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